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O renascer de um usuário de drogas em Pernambuco

Carlos Ferreira, 32 anos, foi usuário de drogas durante 15. Ele usou sete tipos de drogas diferentes, de um simples cigarro vendido no supermercado até crack “dado” pelos traficantes numa boca de fumo. Teve uma juventude semelhante a de muitos jovens nos dias atuais.

Aos 16 anos ele já fumava cigarro por “achar bonito”. As festas e baladas com os amigos foram uns dos primeiros passos para o consumo de cerveja, vodca e Montilla. Aos 17 anos, por influência de colegas da escola Carlos conheceu o loló, a cola e a maconha. Ele usava escondido e ficava na rua até passar o efeito das drogas antes de voltar para casa.

Os pais de Carlos – Maria do Rosário, 61 e João Silva, 57 – ainda não sabiam que o filho mais velho do casal consumia drogas. A casa onde a família mora há décadas é simples e humilde. Mas o essencial nunca faltou.

Carlos estudou apenas até a 8ª série. Ele se considerava um bom aluno e sempre tirava boas notas. Até que as drogas começaram a competir com os estudos. Alguns professores perceberam que ele estava diferente e o aconselhavam a parar.

Conhecido em sua comunidade, Carlos nunca teve inimigos. Isso facilitou para que ele se tornasse um “aviãozinho” – intermediário entre usuários de drogas e o traficante. Ele pegava o dinheiro com amigos e conhecidos, comprava a droga e em troca ganhava uma parte do produto. Como não tinha dinheiro, era dessa forma que ele conseguia manter o vício.
renascer de um usuario de drogas
Sem dinheiro, Carlos sustentava o vício intermediando outros usuários de drogas e os traficantes. Foto: Arquivo pessoal

Após alguns meses, os pais, familiares e todos os amigos na vizinhança descobriram que Carlos usava drogas. Ele chegou a deixar de usar por um tempo e entrou para uma igreja evangélica. No período em que ficou sem usar drogas ele conheceu Angélica Andrade com quem convive desde os 19 anos. Eles não se casaram no papel, mas chegaram morar juntos e tiveram um filho, hoje com quatro anos de idade.

Não demorou muito. A abstinência aos entorpecentes fez com o que ele voltasse para o vício. A partir de agora ele começa usar cocaína e logo em seguida o crack, que é mais barato. De acordo com Carlos, uma peteca de cocaína custa atualmente R$ 50 e a pedra de crack, apenas R$ 10.

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Angélica sempre pedia para que ele deixasse de usar crack. Mas, ele nunca a escutava. Até que certo dia ela o chamou para conversar e disse: “A cada dia que passa você se afunda mais nas drogas. Qual o exemplo vai deixar para seu filho?”. Então, o pai começou a refletir sobre o tempo que havia perdido e a ausência que ele fez para seu filho.

Durante 15 anos de sua vida, Carlos esteve no submundo das drogas. Perdeu tudo que tinha para a maconha, a cocaína e o crack. Casa, bens e dinheiro não eram mais suficientes para sustentar o vício. Nem a própria mulher, o filho pequeno e toda sua família aguentavam aquela situação. Pois, a rotina de um dependente químico se resume quase sempre em usar drogas, dormir e comer. A maioria dos amigos que conviveram com ele durante sua infância já estão mortos. Alguns assassinados por traficantes, outros devido o consumo exagerado de drogas.

 

A cada dia que passa você afunda mais nas drogas. Qual o exemplo vai deixar para seu filho?

 

A partir desse dia ele procurou alguns amigos da igreja em que fez parte quando ainda jovem e pediu ajuda para se libertar das drogas. Passou cerca de nove meses na Cristolândia, – um programa permanente de prevenção, recuperação e assistência a dependentes químicos – em Pernambuco, e agora está totalmente recuperado. Ultimamente, ele tem trabalhado como segurança e vendedor autônomo e agora quer reconstruir sua vida financeira e familiar.

COMBATE – Quase oito em cada dez usuários de crack no Brasil desejam ser submetidos a um tratamento. É o que revela as pesquisas sobre a “Estimava do número de usuários de crack e/ou similares nas capitais do país” e “Perfil de usuários de crack e/ou similares no Brasil”. De acordo com a Fiocruz, autora das pesquisas divulgadas em 2013, este é o maior e mais completo levantamento feito sobre o assunto no mundo.

Na tentativa de diminuir o consumo de crack e outras drogas no país o Governo Federal lançou em 2011, o programa “Crack, é possível vencer”. Apesar disso, o número de dependentes químicos aumenta a cada dia em todo o Brasil.

*Os nomes nesta matéria foram alterados para preservar os personagens

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