RICARDA SAMARA - Olinda sempre foi cidade de ensino. Nas suas ladeiras o Brasil instalou, em 1828, um dos primeiros cursos jurídicos do país; nos seus conventos e igrejas, gerações inteiras aprenderam que construir conhecimento é um ato de paciência. Em 26 de novembro de 2015, a cidade ganhou uma vocação nova, sem abandonar as antigas: formar médicos. Nasceu ali a Faculdade de Medicina de Olinda, a FMO, instalada num bairro que parece ter sido nomeado para a ocasião: Bairro Novo. Novo era, afinal, o que se propunha.
O sonho que tem número, nome e crachá
A criação da FMO foi a realização de um sonho de família, de uma família de tradição acadêmica movida por audácia e determinação. Onze anos depois, o sonho tem número, nome e crachá. Quando a instituição soprou as velas dos dez anos, em 2025, já eram 986 médicos formados. A conta não parou: hoje são mais de mil e cem profissionais circulando por hospitais, maternidades, unidades de saúde e cidades de todos os tamanhos deste país.
Uma missão cada vez mais complexa
Formar um médico nunca foi tarefa de expediente. Formar mais de mil e cem é uma aposta coletiva, feita em salas de aula, laboratórios e nos corredores dos campos de estágio; feita também nas madrugadas em que um professor atende à dúvida de um aluno às duas da manhã.
A missão da casa é declarada e exigente: uma formação universal, de qualidade, com capacidade de adaptação às necessidades da sociedade. Não é frase de parede, é compromisso que se cobra todos os dias. O médico que hoje se forma chega a um planeta em que a inteligência artificial lê exames, os dados atravessam fronteiras em segundos e o saber tem prazo de validade cada vez mais curto. Preparar alguém para esse cenário exige uma formação que não se contente com o mínimo, que ensine a aprender, a desaprender, a reaprender. A missão de quem forma médicos ficou cada vez mais complexa. É exatamente por isso que ela importa.
O maior legado
E há, no centro de tudo, uma certeza: o investimento no capital humano é o maior legado. Prédios envelhecem, equipamentos se tornam obsoletos, currículos mudam. Pessoas permanecem. Cada vida que um desses mil e cem médicos tocar, cada sorriso de alta hospitalar, cada lágrima que escorrer porque a ciência, apesar de tudo, não conseguiu interromper o curso de uma condição clínica imparável, será também um capítulo da história desta escola de Olinda. O jaleco passa; o gesto fica.
Agradecer a quem sonhou primeiro
Neste 18 de outubro, dia de São Lucas, o médico amado, cabe um agradecimento. Ao responsável e idealizador deste sonho, Inácio de Barros Melo Neto, um ser humano incansável em busca da excelência em tudo a que se propõe, deve-se o gesto de olhar para Olinda e decidir que ali se formariam médicos. Todo grande legado começa assim: alguém que acredita antes que os números provem. Os números já provaram. E não é o único sonho: em 2020, o mesmo espírito fundou o Colégio Ecolar, porque quem acredita em gente começa a investir cedo.
O médico amado, ainda hoje
Quem já viu uma colação de grau da FMO conhece a cena: as famílias de pé, os formandos que não seguram a emoção, o diretor-geral que nunca deixou de estar presente. São Lucas era chamado de "o médico amado", amado não porque soubesse tudo, mas porque estava lá. A FMO parece ter entendido a expressão no sentido mais pleno. Inácio de Barros Melo Neto fez dos sonhos um legado, e o legado tem a forma mais difícil de medir e a mais simples de reconhecer: pessoas.
E o idealizador já resumiu a sua certeza numa frase que soa como herança: "Eu passarei, mas sempre haverá a perpetuação do ensino da medicina nessa instituição." Palavras de quem construiu sabendo que a obra é maior do que o construtor. A perpetuação de que ele fala tem rosto: é cada um dos mais de mil e cem médicos que Olinda entregou ao Brasil, e será cada um dos que ainda vão se formar sob os seus sinos.
Que a cidade das ladeiras e dos sinos continue a ensinar a curar. E que, neste dia do médico, ele receba o que todo sonhador merece: a prova viva, de jaleco branco, de que o sonho valeu a pena.
Salve, salve o DIA DO MÉDICO!
*Médica, Secretária de Saúde do Cabo e Diretora de Relações Institucionais da FMO