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"Fui mordido por morcego e virei 1º sobrevivente da raiva humana no Brasil"
"Fui mordido por morcego e virei 1º sobrevivente da raiva humana no Brasil"
18/04/2023 10h21 Atualizada há 3 anos
Por: Redação
Foto: Reprodução

Há meia vida, Marciano Menezes da Silva saiu da pequena cidade de Floresta, em Pernambuco, para as manchetes nacionais. Aos 15, em 2008, ele tornou-se o primeiro brasileiro a sobreviver à raiva humana. Ele se diz feliz por estar vivo, sente que "nasceu de novo", mas precisa conviver com sequelas que mudaram a rotina dele para sempre.

"A principal [sequela] é que antes eu corria. Agora, não", diz Marciano em entrevista ao UOL. Além de precisar de cadeira de rodas, ele tem dificuldades na fala e na mobilidade das mãos. As diferenças entre o menino de 15 anos que foi levado ao hospital após uma mordida de morcego em setembro de 2008 e o adulto de 30 que precisa de auxílio para se locomover não são apenas externas.

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Hoje, o rapaz marcado pelo trauma não consegue ficar fora da casa em que mora à noite, turno no qual foi mordido pelo animal.

O menino que corria tem uma rotina pacata no sítio em que sempre morou. Marciano acorda, toma café da manhã fora da casa, volta para dentro e passa horas assistindo à TV todos os dias, exceto quando sai para fazer acompanhamento fisioterápico no centro de Floresta, uma vez por semana.

Independência limitada Nos anos seguintes à sua cura, o jovem tinha o sonho de uma cadeira de rodas motorizada que o ajudasse a se locomover. Ele ganhou o veículo em 2017, mas, no fim de 2022, mais de cinco anos após a liberdade, o par de baterias do veículo acabou.

Pelo custo elevado das baterias (superior a R$ 1 mil, segundo o rapaz), ele passou a não conseguir mais mover o equipamento sozinho. "Agora, na maioria do tempo, quando preciso subir para dentro de casa, são os outros que me empurram", conta. O jovem continua vivendo com o pai e dois dos sete irmãos. Ele conta com eles e com os cunhados para locomoção dentro do sítio.

Pandemia

Um dos períodos mais complicados para Marciano após a doença foi a pandemia da covid-19. No grupo de risco da doença por causa das sequelas da raiva, ele recebeu a notícia de um irmão e uma cunhada infectados. Em um isolamento ainda mais severo do que o rotineiro, não se contaminou.

O confinamento, porém, impediu uma das poucas atividades que ele fazia fora do sítio: os exercícios para melhorar a movimentação dos membros, afetada pela doença.

Tive de ficar em casa, porque se eu pegasse [covid-19] não ficaria mais vivo. Foi um período complicado, eu parei a fisioterapia, mas já voltei no começo de 2022.

O jovem Marciano mantém sonhos antigos. Um deles é ter uma reforma no quarto em que vive e comprar um ar-condicionado para lidar com o calor de Floresta. O outro é recuperar a pouca independência que conquistou. "Meu sonho é nunca ficar sem a minha cadeira motorizada."

Infecção, tratamento e cura

Marciano foi mordido no tornozelo por um morcego na noite de 7 de setembro de 2008, enquanto dormia. Ele foi levado pelo pai para um posto de saúde da área rural do município no dia seguinte e encaminhado a um pronto-socorro de Floresta em seguida. Ao ser atendido por um médico, o então adolescente não recebeu a vacina antirrábica por "não apresentar sintomas" da doença. Ele começou a manifestar esses sintomas cerca de um mês depois, quando começou a ter dormência nos braços e febre alta.

O adolescente foi levado para o Recife e chegou a ser "desenganado" por especialistas, que deram, no máximo, 10 dias de vida para ele.

Uma equipe do Hospital Universitário Oswaldo Cruz iniciou no local o protocolo de Willoughby, aplicado à primeira pessoa do mundo a sobreviver à doença, uma norte-americana, no ano de 2004. Entre as ações do protocolo estavam a indução do coma no paciente e a aplicação de antivirais.

A notícia da cura de Marciano, a quarta pessoa do mundo a sobreviver à raiva, foi confirmada pelos médicos pernambucanos no dia 13 de novembro de 2008. Marciano ainda passou um ano no hospital e voltou para casa em 2009.

Via UOL Notícias.