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A ressurreição digital: internet reconfigura o luto

“Minha mãe sempre gostou muito de escrever. Tinha muitos cadernos com mensagens e poemas, muitos deles só descobrimos depois do falecimento dela. Com o surgimento das redes sociais, ela quis aprender tudo e passava horas no computador e celular adicionando amigos, familiares e fazendo novas amizades. Também adorava deixar recados e contar histórias. Há cinco anos ela faleceu, e todo dia 20 faço alguma homenagem. Também escrevo para ela no Dia das Mães, aniversário ou simplesmente quando a saudade bate e preciso desabafar essa dor que ainda é forte em mim. Vou para o Facebook e escrevo para ela. Marco a rede social dela, que permanece ativa, e fica lá a minha mensagem. Sei que ela não vai ler – ou vai, não sabemos ainda o que acontece depois que morremos. Mas, vejo isso como uma forma de senti-la perto de mim”, Conceição Ricarte, 35 anos, jornalista.

O comportamento de Conceição em buscar consolo e manutenção da memória da mãe nas redes sociais tem se tornado cada dia mais comum. Na era da internet e da sociedade conectada com a morte, o luto e a eternidade foram reconfigurados dentro da cultura digital. Se anteriormente as lembranças e a saudade daqueles que já se foram eram guardadas em baús, gavetas ou apenas no coração de quem ficou, agora migraram para o âmbito público expandido, criando um fenômeno de morte partilhada como aponta a psicóloga Rosemere Kiss Guba.

“Antes havia luto na intimidade. Demonstrava-se luto vestindo-se de preto e se resguardando em casa como forma da sociedade entender a tristeza daquele momento. Agora, a dor, a perda, a saudade, são exteriorizadas, escritas e postadas”, diz a psicóloga. A especialista reforça que as tecnologias da informação também criaram um novo tipo de lembrança de quem já morreu e com a qual os vivos passaram a conviver: a dos bancos de dados. Rastros digitais construídos ao longo da vida e que podem ser resgatados a qualquer momento, como aquela última mensagem de voz ou texto no WhatsApp, recado ou foto do Facebook, postagem no Twitter, sem falar em tantas outras contas seguidas e compartilhadas.

Apesar de a era digital ter mudado a forma como muitos de nós se relacionam com o luto e a memória dos mortos, uma coisa permanece intacta: a falta de preparo para lidar com a morte. Ou seja, a aceitação e não aceitação dela. “A morte é uma das experiências mais difíceis de serem vivenciadas pelos seres humanos. Há uma singularidade cultural, religiosa, de fé – ou da falta de tudo isso – que vai formatar o jeito como a pessoa lida com ela”, explicou Rosemere.

Biologicamente, fomos feitos para nascer, crescer, reproduzir, estagnar e morrer, mas aceitar esse processo não é fácil. Soma-se a isso, nos tempos de hoje, a vida virtual paralela que alimentamos nas redes. Da mesma forma que é doloroso admitir a morte orgânica, é complicado para muitos se desprender da ausência daquele ente nas redes sociais. E é por isso que tantos perfis permanecem ativos ou viram memoriais.

Não há consenso se as interações com os perfis de amigos ou parentes já falecidos atenuam ou aumentam o sofrimento. “Para muitos, é uma forma de diminuir a ausência e a dor. Para outros, não. E podemos dizer que isso representa a manutenção do sofrimento. Não podemos esquecer que há compensações com o sofrimento. O importante é a pessoa não paralisar nisso”, pondera a psicóloga – que também, recentemente, usou as redes sociais para homenagear um amigo que partiu.

O avatar e o futuro da morte
O futurista da empresa Futuring.Today, Jacques Barcia, comentou que as tecnologias fizeram com que a memória dos mortos se tornasse mais ativa e – porque não – de certa forma, independente da vontade dos vivos. Um exemplo prático disso é o recebimento de postagens antigas de quem já faleceu, em datas que o próprio algoritmo do Facebook acha que gostaríamos de ser lembrados.

“Isso gera um estranhamento. É um momento de confusão dessa criatura, esse fantasma digital, que ainda está por lá (na rede social). É como se ele existisse ainda. É uma forma de memória mais ativa”, avalia. O estudante Caio Mello, 23, tem se assustado com algumas interações. “Tem uma amiga que já morreu e, às vezes, aparece online para mim. Fora as curtidas de quem já faleceu que também acontecem. Eu não sei como isso funciona, mas não gostaria que acontecesse comigo”, disse.

Para o especialista da Futuring.Today, nas próximas décadas essa comunicação de mortos-vivos no ambiente digital pode se refinar ainda mais. “Se a gente começar a cruzar inteligências artificiais mais avançadas com renderização de personas digitais e colocar isso, por exemplo, em realidade aumentada, pode ser que eu tenha, em um dado momento, avatares literalmente flutuando em realidade mista. E, de repente, até falando com a voz de uma pessoa que já morreu”, explica.

O aplicativo Replika já é uma experiência desse tipo. Criado pela russa Eugenia Kuyda, em 2015, para superar a morte de um amigo, a desenvolvedora, por meio dos rastros digitais dele, conseguiu “recriá-lo” em um chatbot, que é um programa de computador que simula o ser humano numa conversação. Jacques acredita que na próxima década o cruzamento de informações digitais possibilitará a reconstrução de boa parte da personalidade do ser humano. No entanto, alerta para novos dilemas com relação à manipulação das personas digitais.

“Será que, em dado momento do futuro eu terei que deixar dentro do meu espólio, expressamente, a vontade de que minha personalidade tem que ser preservada e que eu não quero que ela seja replicada?”, provoca.

Via FolhaPE

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